Ano novo, velhos hábitos

Já tem uns cinco, seis anos que venho questionando com afinco a maneira como uso a internet e, principalmente, as redes sociais. Mesmo sendo low-profile de carteirinha, tenho uma propensão muito grande a passar mais de duas horas rolando feed sem me dar conta do tempo e, quando a ficha cai, quase morro de frustração. Esse meu incômodo, porém, tem ido além da sensação de perda de tempo e se misturado com uma sensação de perda de controle mesmo.

Antes de eu tomar a atitude “drástica” de deletar todos os aplicativos de redes sociais do meu celular neste réveillon, eu realmente tentei usá-los de forma mais controlada e consciente, mas caio que nem patinha em todas as armadilhas de retenção das gigantes da tecnologia. E (talvez) estaria tudo bem se fosse uma atividade que gosto de fazer no meu tempo livre, mas não é. Na verdade, eu acabo ficando sem tempo de fazer as tais atividades que gosto para, em vez disso, consumir conteúdo de qualidade duvidosa de pessoas com quem não há qualquer possibilidade real de conexão. Isso me deixa infeliz.

Fui uma criança sem acesso à internet, uma pré-adolescente que acessava a internet só aos domingos (pois era de graça) e uma adolescente que tinha MSN, Orkut, Fotolog/ Flogão, Twitter e tudo mais que eu tivesse direito, mas que não tinha um smartphone. Para estar online era preciso estar em casa e com o computador ligado. Eu sei como é uma vida mais off. Eu vivi isso. E, caramba, como sinto falta de quando o tempo online, além de proporcionar conexões reais com outras pessoas, "acabava".

Apesar de, sim, haver saudade, não vejo a ideia de buscar velhos hábitos como saudosismo, mas como uma tentativa de recuperar modos de me relacionar com o tempo e com a atenção que me faziam bem. Eu realmente acredito que a maneira como passei a usar a internet e meu tempo livre teve um peso grande na deterioração da minha saúde mental. Agora, quero testar limites.

Tenho refletido muito sobre o que eu realmente quero - e não o que acho que devo querer -, porque a sensação que tenho é que, ao longo da vida, fui tomando decisões com base em desejos e interesses que não vieram genuinamente de mim. Esse assunto merece um post só para ele, mas onde quero chegar aqui é que toda essa reflexão me levou a uma única resolução de ano novo: ter mais autonomia. E eu definitivamente não quero mais algoritmos decidindo o que vou consumir. Precisa ser eu a pessoa que decide como (e por quanto tempo) vou me comportar na internet, e não donos de big techs.

Não acho que faz sentido abdicar de toda a tecnologia disponível e buscar uma espécie de vida eremita. Também não quero trocar meu smartphone por um dumbphone, ou voltar a baixar músicas no meu MP3 player (pelo menos por enquanto). Reconheço muitos aspectos positivos nos avanços tecnológicos. Apenas acredito que ainda tenho a opção de recusar seus aspectos negativos, e eu vou buscar recusá-los.

Ainda estou entendendo o que funciona para mim, mas já consegui me adaptar à vida sem a maioria dos aplicativos insalubres e sem notificações do WhatsApp (desse ainda não consegui escapar). Assinei boas newsletters para me manter informada e comecei a usar feed RSS para acompanhar as atualizações de sites, blogs e canais do Youtube que eu gosto. Ainda uso o Spotify, mas parei de deixar as músicas tocando no modo aleatório e tenho escolhido ao menos um álbum por dia para ouvir inteiro.

Tenho voltado, aos poucos, a ter tempo para desenhar, escrever e ler bons textos. Tirei a poeira da minha guitarra e me matriculei em uma escola de música. Mas ainda tem muita coisa que quero voltar a fazer, como encontrar com mais frequência as pessoas que eu amo, ir mais à praia, fazer trilhas, andar de bike pela cidade, visitar exposições, ir a bares com rock ao vivo etc. etc. etc.

Vou contando aqui, de tempos em tempos, a quantas anda minha tentativa de viver de forma mais ativa e menos reativa.