Meus dados, meus problemas

Tinha comentado por aqui, uns dois posts atrás, que estou intencionalmente mudando a forma como uso a internet e que isso tem muito a ver com a minha única resolução de ano novo de ampliar a minha autonomia de modo geral, o que inclui (re)assumir as rédeas sobre o que eu consumo. Hoje vim aqui compartilhar com mais detalhes o que me aflige e o que eu tenho feito com relação a isso.

Por que mudar

Já vem de tempos a minha implicância com feeds personalizados para mim com base em informações minhas que eu não escolhi compartilhar. Pior que, como trabalham com previsibilidade, são conservadores, e insistem em dados de uma versão minha que já não sou ou não quero mais ser. A soma disso com o asco que só aumenta pelas Big Techs me levou a ir atrás de entender como esses caras conseguem meus dados e como eu posso evitar que o façam.

Eu já entendia algoritmos como grandes dificultadores da nossa autonomia. Eles aprendem o que nos agrada e o que nos retém na plataforma e vão nos oferecendo mais do mesmo. A gente até acha que está consumindo o que quer, afinal estamos sendo agradados enquanto rolamos o feed. Se não gostamos de algum conteúdo, simplesmente arrastamos para cima. Mas nem o que a gente assiste ali é escolha nossa. Gostar não é o mesmo que querer.

Não é por isso que tanta gente se sente tão bosta quando se dá conta que perdeu duas horas da própria vida scrollando feed montado por algoritmo?

Só que eu, ainda ingênua, fui descobrindo que algoritmos são só a ponta da lança. Eles só executam o que aprendem com rastreadores, cookies, fingerprint e sei lá mais o que (pior que ainda não sei mesmo) que estão observando e registrando tudo o que fazemos sem pedir permissão. Esses estão nos sistemas operacionais e navegadores mais comuns, nos encontram em sites que a gente nem imagina e até na caixa-de-entrada do nosso e-mail.

Não acho que seja possível escapar completamente de quaisquer influências externas. E não acho que vou conseguir escapar completamente desses espiõezinhos porque eu amo alguns cantos dessa nossa internet, e na internet eles estão por toda parte. Mas fui fuçando e descobrindo que existem caminhos melhores, e se sou eu que estou incomodada, tenho mais é que explorar novos caminhos mesmo.

O que eu já fiz

Eu ainda estou engatinhando nesse assunto, mas vamos lá.

As mudanças mais significativas que consegui fazer até agora foram no meu notebook pessoal. Grazadeus sou uma noob que se vira muito bem com um bom tutorial, então consegui mudar o sistema operacional dele e já estou devidamente acomodada no Linux 🐧. Também estou usando VPN sempre que fico online e não acesso nada do Google, da Meta ou da Amazon. Desvinculei todos os meus logins com Google e Facebook e agora acesso tudo com e-mail alias (endereço alternativo) e com uma senha diferente para cada serviço. Uso gerenciador de senhas, então isso não dá trabalho algum.

Mas nos meus outros dispositivos tenho restrições que ainda não consigo contornar.

Minha pesquisa acadêmica envolve análise de notícias no desqueridíssimo Instagram e tabulação de dados no Excel, então ainda não é o momento de abandonar de vez o Windows (Microsoft) no meu computador de mesa, que uso para trabalhar. Já meu celular é Android (Google) e ainda está fora de cogitação tentar mudar o sistema operacional dele. Nesses dois, mesmo que eu não use nenhum app do Google ou da Microsoft, o sistema operacional em si já está reportando informações para eles. Ou seja, não tem como ter privacidade.

O que eu fiz para resolver um pouco desse impasse foi separar o que é pessoal para usar só pelo notebook Linux, deixando para os outros dispositivos o que é trabalho e o que "ainda não tem jeito", como pegar arquivos na nuvem ou acessar e-mails de contas Gmail e Outlook, que estou abandonando aos poucos.

Mas, para não dizer que não tentei, no celular eu troquei o teclado, o navegador e o buscador por opções mais privadas e tirei a permissão de localização do máximo de aplicativos possíveis. Como comentei em outro post, já não tenho mais redes sociais no celular e a maioria dos sites que acesso são a partir do meu leitor de Feed RSS. Nesse leitor também é por onde acompanho os canais do Youtube que gosto. Quando tem vídeo novo eu clico no link, assisto e fecho correndo para não acabar sendo fisgada por alguma thumbnail apelativa e ficar lá por horas.

Meu notebook atual
Sistema operacional: Zorin OS (Linux)
Gerenciador de senhas: Bitwarden
Navegadores: Brave e Firefox (com modificações)
Buscador: DuckDuckGo
E-mail: Proton Mail
Aliases: Proton Pass
VPN: Proton VPN

Meu celular atual
Navegador: DuckDuckGo
Buscador: DuckDuckGo
Teclado: FUTO Keyboard
Leitor RSS: Feeder

O que eu ainda quero fazer

Softwares FOSS: Estou buscando alternativas de código aberto para os softwares que mais uso no dia a dia. O Notion, por exemplo, que eu usava para planejar e organizar minha vida inteira (informações bem sensíveis né), parecia ter alternativas FOSS excelentes, mas tô descobrindo que nem tudo o que se diz FOSS é FOSS mesmo (segundo o https://isitreallyfoss.com/). Os desenvolvedores abrem só uma parte do código para o público, sendo assim não dá para saber se é um serviço que de fato respeita a privacidade do usuário, e eu já estou sem saco para confiar em empresa de tecnologia. Sigo analisando minhas opções.

Software próprio: Também estou voltando a codar e comecei a estudar JavaScript, que é um mundo totalmente novo para mim. Já estou batendo cabeça numa ideia de aplicativo que quero muito desenvolver, mas tem muito contexto pessoal por trás disso que quero contar com calma, então vou deixar para um post futuro.

Self-hosting: Tenho em casa um gabinete de computador e um notebook antigos que estou pensando em transformar em um servidor para guardar meus arquivos em nuvem própria, ou seja, sem depender de Google ou similares. A ideia é usar o gabinete como base e aproveitar o que ainda presta nele, além de reaproveitar o HD, o SSD e a placa de rede WI-FI do notebook (será que dá?). Ainda estou no começo dos meus estudos sobre isso, mas é para onde estou caminhando.

Reflexões finais

Tenho refletido muito sobre como a privacidade, que deveria ser direito de todo mundo e garantida por padrão pelos desenvolvedores de softwares, acabou virando responsabilidade individual do usuário. E uma responsabilidade que não é factível para todo mundo.

Alguns amigos meus, por exemplo, por mais que se preocupem com essas questões, jamais conseguiriam se adaptar a tantas mudanças que são necessárias para ter privacidade. Falta tempo, disposição e conhecimento técnico. E eu imagino que essas são três coisas que a maioria das pessoas simplesmente não tem.

Eu mesma (que cresci com o rabo colado numa cadeira de computador, gosto de estudar e fuçar coisas, consigo arrumar tempo para isso e sei um pouco mais que o básico de tecnologia) tenho esbarrado em dificuldades maiores do que eu esperava.

Enfim, para fechar este texto que já está ficando grande demais para o meu padrão, um disclaimer: caso não tenha ficado claro, isso aqui é um desabafo, não uma argumentação, muito menos um tutorial. Eu detesto proselitismo, então longe de mim querer convencer alguém a se importar com a própria privacidade e autonomia. Estou escrevendo sobre isso no meu blog porque, oras, é meu blog, e esta é uma questão importante para mim.

Maaas, no fundo estou torcendo para que este post chegue em alguém desse mundão que está precisando só de um peteleco para começar a se mexer. Se for por falta de companhia, não falta mais.